Artigos › 19/03/2018

Impulsus – Evangelho segundo S. Mateus 2

Evangelho segundo S. Mateus 2,1-12.

Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.» Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E, reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vai sair o Príncipe que há-de apascentar o meu povo de Israel.» Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exactas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido. E, enviando-os a Belém, disse-lhes: «Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrardes, vinde comunicar-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem.» Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho.

„Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia“ – Mt 2,1

  1. Belem, cidade única, * só tu pudeste ver * [:o Salvador do céu * na terra aparecer.:]
  2. Brilhante, nova estrela, * que vence a luz do dia, * [:ter vindo à terra Deus * aos homens anuncia.]:
  3. Ao vê-la os Magos partem, * repartem seu tesouro: * [:prostrados oferecem * incenso, mirra e ouro.:]
  4. O ouro ao Rei é dado * ao Deus o incenso puro, * [:mas fala do sepulcro * da mirra o pó escuro.:]

Pe. José Weber – Cantos e orações, 367

Beato Guerric d’Igny (c. 1080-1157), abade cisterciense

II Sermão para a Epifania

A luz do mundo revelada às nações

“Levanta-te e resplandece, Jerusalém, chegou a tua luz!” (Is, 60, 1) Chegou realmente a tua luz; ela estava no mundo e o mundo foi feito por ela, mas o mundo não a conheceu. O Menino nascera, mas não foi conhecido enquanto o dia da luz não começou a revelá-lo. […] Erguei-vos, vós que estais sentados nas trevas! Dirigi-vos para esta luz; ela ergueu-se nas trevas, mas trevas não conseguiram abarcá-la. Aproximai-vos e sereis iluminados; na luz vereis a luz, e dir-se-á sobre vós: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor” (Ef 5, 8). Vede que a luz eterna se acomodou aos vossos olhos, para que Aquele que habita uma luz inacessível possa ser visto pelos vossos olhos fracos e doentes. Descobri a luz numa lâmpada de argila, o sol na nuvem, Deus num homem, no pequeno vaso de argila do vosso corpo o esplendor da glória e o brilho da luz eterna! […]

Nós de damos graças, Pai da luz, por nos teres chamado das trevas à tua luz admirável. […] Sim, a verdadeira luz, mais do que isso, a vida eterna, consiste em Te conhecer, a Ti, único Deus, e ao Teu enviado Jesus Cristo. […] É certo que Te conhecemos pela fé, e temos como seguro que um dia Te conheceremos na visão. Até lá, aumenta-nos a fé. Conduz-nos de fé em fé, de claridade em claridade, sob a moção do teu Espírito, para que penetremos cada dia mais nas profundezas da luz! […] Que a fé nos conduza à visão face a face e que, à semelhança da estrela, ela nos guie até ao nosso chefe nascido em Belém. […]

Que alegria, que exultação para a fé dos magos, quando virem reinar, na Jerusalém das alturas, Aquele que adoraram quando vagia em Belém! Viram-no aqui numa habitação de pobres; lá, vê-Lo-emos no palácio dos anjos. Aqui, nos paninhos; lá, no esplendor dos santos. Aqui, no seio de sua Mãe; lá, no trono de seu Pai.

João Crisóstomo ( c. 345-407), bispo de Antioquia depois de Constantinopla, doutor da Igreja

Homilias sobre S. Mateus

«Caindo de joelhos, prostraram-se diante dEle»

Irmãos, sigamos os Magos, deixemos os nossos costumes pagãos. Partamos! Façamos uma longa viagem para vermos Cristo. Se os Magos não tivessem partido para longe do seu país, não teriam visto Cristo. Abandonemos também os interesses da terra. Enquanto estavam no seu país os magos só viam a estrela, mas, quando deixaram a sua pátria, viram o Sol da Justiça (Ma 3,20). Melhor dizendo: se eles não tivessem empreendido generosamente a sua viagem, nem sequer teriam visto a estrela. Levantemo-nos pois, também nós, e mesmo que toda a gente se espante em Jerusalém, corramos até ao local onde está o Menino.

Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe; e, ajoelhando, prostraram-se diante dele; depois, abrindo os cofres, ofereceram-lhe os seus presentes. «Que motivo os levou a prostrarem-se diante desta criança? Nada de assinalável quer na virgem, quer na casa; nem um objeto capaz de ferir o olhar e os atrair. E, contudo, não contentes de se prostrarem, abriram os seus tesouros, presentes que não se oferecem a um homem, mas apenas a Deus – o incenso e a mirra simbolizam a divindade.  Que razão os levou a agir dessa forma? A mesma que os decidira a abandonar a sua pátria, a partir para essa longa viagem. Foi a estrela, quer dizer, a luz com que Deus enchera o seu coração e que os conduzia, pouco a pouco, a um conhecimento mais perfeito. Se não tivessem tido essa luz, como poderiam ter rendido tais homenagens, se aquilo que viam era tão pobre e tão humilde? Se não há grandeza material, mas apenas uma manjedoura, um estábulo, uma mãe despida de tudo, é  para que vejas mais nitidamente a sabedoria dos Magos, para que compreendas que vieram, não até um homem, mas até um Deus, seu benfeitor.

João Crisóstomo (cerca de 345-407), bispo de Antioquia e de Constantinopla, doutor da Igreja

Homilias sobre S. Mateus

Sigamos os Magos

Ergamo-nos, a exemplo dos Magos. Deixemos todos se perturbarem, mas corramos nós até onde mora o Menino. Que os reis ou os povos, que tiranos cruéis se esforcem por nos barrar o caminho, pouco importa, não abrandemos o nosso ardor. Afastemos todos os males que nos ameaçam. Se não tivessem visto o Menino, , os Magos não teriam escapado ao perigo que corriam da parte do rei Herodes. Antes de terem a felicidade de O contemplar, eles estavam sitiados pelo medo, rodeados de perigos, mergulhados na perturbação; depois que O adoraram, a calma e a segurança voltaram às suas almas…
Deixai então, também vós, uma cidade em desordem, um déspota sedento de sangue, todas as riquezas do mundo, e vinda a Belém, à casa do pão espiritual. Sois pastores: vinde apenas e vereis o Menino na manjedoura.
Sois reis: se não vindes, a vossa púrpura não vos servirá de nada. Sois magos: isso não é impedimento, desde que venhais mostrar o vosso respeito e não esmagar a vossos pés o Filho de Deus, desde que vos aproximeis com temor e alegria, duas coisas que não são incompatíveis…
Quando nos prosternarmos, deixemos escapar tudo das nossas mãos. Se tivermos ouro, demo-lo sem reservas e não o escondamos… Houve estrangeiros que empreenderam uma viagem tão longa só para contemplar este recém-nascido: que razão tendes vós para desculpar a vossa conduta, vós que vos recusais a dar alguns passos para visitar o doente ou o prisioneiro? Eles oferecem ouro:
mas vós, é com tanta dificuldades que dais pão! Eles viram uma estrela e o seu coração ficou cheio de alegria; vós vedes Cristo numa terra estranha, sem roupa, e não vos emocionais?

„Chegaram a Jerusalém uns magos, vindos do Oriente“ – Mt 2,1

  1. São três reis que chegam lá do Oriente / para ver um Rei que acaba de nascer. / Dizem que um é branco, o outro, cor de jambo / o outro rei é negro e que vieram ver [: o novo Rei que nasceu igual estrela no céu.:]
    Dizem que uma estrela muito diferente / lá do Oriente se podia ver. / Falam de um cometa, ninguém sabe ao certo / mas pelo deserto eles vieram ter [: ao novo Rei que nasceu igual estrela no céu.:]

[:E trazem ouro, incenso e mirra / pra festejar o novo Rei / que tem poder e majestade / que vem do céu, que é de Deus / que vai sofrer, que vai morrer / e que nos libertará….:]

  1. São milhões de vidas que no Ocidente / que no Oriente sofrem de opressao / têm todas as cores, todos os temores / todos os rancores desta humilhação [: esperam libertação e olham todos pro céu..]
    Dizem que um futuro muito diferente / essa pobre gente ´inda conhecerá / dizem que é seguro, que o futuro é certo / que anda muito perto, que começa já! [. Olham pro Rei que nasceu igual estrela no céu:]

Cantemos ….. n° 144

„Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo“ – Mt 2,2

Vimos a sua estrela no Oriente / e viemos com presentes adorar o Senhor

  1. Por que os povos agitados se revoltam, / por que tramam as nações projetos vãos? / Por que os reis de toda terra se reúnem / contra o Deus onipotente e o seu Ungido?
  2. Ri-se deles O que mora lá nos céus; / zomba deles o Senhor Onipotente. / „Fui eu mesmo que escolhi este meu Rei / e em Sião, meu Monte Santo, o consagrei!“
  3. E agora, poderosos, entendei; / soberanos, aprendei esta lição: / Com temor servi a Deus, rendei-lhe glória / e prestai-lhe homenagem com respeito!

Cantemos ….. n° 145

Evangelho segundo S. Mateus 2,13-15.19-23.

Depois de partirem, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para o matar.» E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito, permanecendo ali até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciou pelo profeta: Do Egito chamei o meu filho. Morto Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino.» Levantando-se, ele tomou o menino e sua mãe e voltou para a terra de Israel. Porém, tendo ouvido dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de Herodes, seu pai, teve medo de ir para lá. Advertido em sonhos, retirou se para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré; assim se cumpriu o que foi anunciado pelos profetas: Ele será chamado Nazareno.

Evangelho segundo S. Mateus 2,13-18.

Depois de partirem, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para o matar.» E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito, permanecendo ali até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciou pelo profeta: Do Egito chamei o meu filho. Então Herodes, ao ver que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou matar todos os meninos de Belém e de todo o seu território, da idade de dois anos para baixo, conforme o tempo que, diligentemente, tinha inquirido dos magos. Cumpriu-se, então, o que o profeta Jeremias dissera: Ouviu-se uma voz em Ramá, uma lamentação e um grande pranto: É Raquel que chora os seus filhos e não quer ser consolada, porque já não existem.

Gregório de Nissa (cerca de 335-395), monge e bispo

Sermão sobre a Natividade de Cristo

Hoje começa o mistério da Paixão

“Quando soube do nascimento do Salvador, Herodes ficou preocupado e toda a Jerusalém com ele” (Mt 2,2)… Era o mistério da Paixão que a mirra dos magos  simbolizava já; sem piedade, manda-se massacrar recém-nascidos… Que significa esta mortandade de crianças? Porque ousar um crime tão terrível? «É que, dizem Herodes e os seus conselheiros, apareceu no céu um sinal estranho; ele assegura aos magos a vinda de um outro rei». Compreendes, Herodes, o que são estes sinais anunciadores? Se Jesus é senhor dos astros, não estará ao abrigo dos teus ataques? Julgas que tens o poder de fazer viver ou morrer, mas não tens nada a temer de alguém tão doce. Deus submete-o ao teu poder; porquê conspirar contra ele?…
Temos depois o luto, «a queixa amarga de Raquel que chora os seus filhos» – porque hoje o Sol de justiça (Ma 3,20) dissipa as trevas do mal e derrama a sua luz sobre todo a natureza, ele que assume a nossa natureza humana… Nesta festa da Natividade, «as portas da morte foram rebentadas, as barras de ferro foram quebradas» (Sl 107, 16); hoje, «abrem-se as portas da justiça» (Sl 118, 19)… Porque a morte veio por um homem; hoje, por um homem, vem a salvação (Rm 5,18)… Depois da árvore do pecado, ergue-se a árvore da bondade, a cruz… Hoje começa o mistério da Paixão.

Pregador do Papa esclarece em que consiste a recíproca submissão entre esposos
Em seu comentário às leituras da festa da Sagrada Família

ROMA, sexta-feira, 24 de dezembro de 2004 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do padre Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, às leituras da liturgia do próximo domingo, 26 de dezembro (Mt 2,13-15.19-23; Si 3,2-6. 12-14; Col 3,12-21), festividade da Sagrada Família.

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Mateus (2,13-15.19-23)

Depois dos Magos se retirarem, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e lhe disse: «Levanta-te, toma contigo a criança e sua mãe e foge para o Egito; e permanece ali até que eu te diga. Porque Herodes vai buscar a criança para matá-la». José se levantou, tomou de noite a criança e sua mãe, e se retirou ao Egito; e esteve ali até a morte de Herodes; para que se cumprisse o oráculo do Senhor, por meio do profeta: «Do Egito chamei meu filho».
No domingo depois do Natal celebra-se a festa da Sagrada Família: Jesus, Maria e José. Na segunda leitura, São Paulo disse: «Mulheres, sede submissas a vossos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai vossas mulheres, e não sede ásperos com elas. Filhos, obedecei vossos pais, porque isto é do agrado de Deus no Senhor. Pais, não exasperai vossos filhos, não seja que se desalentem». Neste texto, apresentam-se as duas relações fundamentais que constituem a família: a relação mulher-marido, e pais-filhos.
Das duas relações, a mais importante é a primeira, a relação de casal, porque dela depende em grande parte também a segunda, aquela com os filhos. Lendo com olhos modernos as palavras de São Paulo, salta imediatamente uma dificuldade. São Paulo recomenda ao marido «amar» a própria mulher (e isto está bem), mas logo recomenda à mulher que seja «submissa» ao marido, e isto, em uma sociedade fortemente (e justamente) consciente da igualdade dos sexos, parece inaceitável. Sobre este ponto, São Paulo está, ao menos em parte, condicionado pela mentalidade de seu tempo. No entanto, a solução não está em eliminar das relações entre marido e mulher a palavra «submissão», está em todo caso em fazê-la recíproca, como recíproco deve ser também o amor.
Em outras palavras, não só o marido deve amar a mulher, mas também a mulher o marido; não só a mulher deve estar submetida ao marido, mas o marido à mulher. A submissão não é então senão um aspecto e uma exigência do amor. Para quem ama, submeter-se ao objeto do próprio amor não humilha, ao contrário, faz feliz.
Submeter-se significa, neste caso, ter em conta a vontade do cônjuge, seu parecer e sua sensibilidade; dialogar, não decidir por si só; saber às vezes renunciar o próprio ponto de vista. Enfim, lembrar-se de que se converteram em «cônjuges», isto é, literalmente, pessoas que estão debaixo do mesmo jugo. A Bíblia situa uma relação estreita entre o estar criados à «imagem de Deus» e o fato de ser «homem e mulher» (Cf. Gn 1,27). A semelhança consiste nisso. Deus é único e sozinho, mas não solitário. O amor exige comunhão, intercâmbio pessoal; requer que haja um «eu» e um «tu». Por isso o Deus cristão é uno e trino. Nele coexistem unidade e distinção: unidade de natureza, de vontade, de intenção, e distinção de características e de pessoas.
Precisamente nisso o casal humano é imagem de Deus, reflexo da Trindade. Marido e mulher são de fato uma só carne, um só coração, uma só alma, ainda na diversidade de sexo e de personalidade. Os esposos estão de frente, o um ao outro, como um «eu» e um «tu», e estão frente a todo o resto do mundo, começando pelos próprios filhos, como um «nós», como se se tratasse de uma só pessoa, mas já não singular, senão plural. «Nós», isto é, «tua mãe e eu», «teu pai e eu». Assim falou Maria a Jesus depois de encontrá-lo no templo.
Bem sabemos que este é o ideal e que, como em todas as coisas, a realidade é freqüentemente diferente, mais humilde e mais complexa, às vezes até trágica. Mas estamos tão bombardeados de casos de fracasso que talvez, por uma vez, não está mal voltar a propor o ideal do casal, primeiro no plano natural e humano, e depois no cristão.
Os jovens têm direito a ver que se lhes transmite, pelos mais velhos, ideais e não só ceticismo. Nada tem a força da atração que o ideal possui.
[Tradução feita por Zenit do original publicado por «Famiglia Cristiana»]
ZP04122408

Cardeal John Henry Newman (1801-1890), padre, fundador de comunidade religiosa, teólogo

“Mártires incapazes de confessar o nome do teu Filho e todavia glorificados pelo seu nascimento” (Postcommunio)

É de toda a justiça que celebremos a morte destes Santos Inocentes, porque ela é santa. Quando os acontecimentos nos aproximam de Cristo, quando sofremos por Cristo, é seguramente um privilégio incrível – qualquer que seja o sofrimento, mesmo se no momento não estamos conscientes de sofrer por ele. As crianças que Jesus tomou nos braços também não podiam compreender nesse momento de que condescendência admirável estavam a ser objecto, mas esta bênção do Senhor não era ela um real privilégio? Paralelamente, este massacre das crianças de Belém tem para elas lugar de sacramento; era a caução do amor do Filho de Deus para com aqueles que experimentaram esse sofrimento. Todos os que se aproximaram dele sofreram mais ou menos, pelo simples facto desse contacto, como se emanasse dele uma força secreta que purifica e santifica as almas através das penas deste mundo. Foi o caso dos Santos Inocentes.
Verdadeiramente, a própria presença de Jesus tem lugar de sacramento: todos os seus actos, todos os seus olhares, todas as suas palavras comunicam a graça aos que aceitam recebê-la – e quanto mais aos que aceitam tornar-se seus discípulos. Desde os inícios da Igreja, um tal martírio foi considerado como uma forma de baptismo, um verdadeiro baptismo de sangue, que tem a mesma eficácia sacramental que a água que regenera. Nós somos pois convidados a aceitar estas crianças como mártires e a aproveitar do testemunho da sua inocência.

João Paulo II
Audiência Geral de 29/12/1993

“Viveu em tudo a nossa condição de homem”

Quase imediatamente após o nascimento de Jesus, a violência gratuita que ameaça a sua vida abate-se também sobre tantas outras famílias, provocando a morte dos Santos Inocentes. Ao recordar esta terrível provação vivida pelo Filho de Deus e pelas crianças da mesma idade, a Igreja sente-se convidada a rezar por todas as famílias ameaçadas a partir do seu interior ou a partir do exterior… A Sagrada Família de Nazaré é para nós um desafio permanente que nos obriga a aprofundar o mistério da “igreja doméstica” e de cada fam+ília humana. Ela é, para nós, um estimulante a fim de nos incitar a rezar pelas famílias e com as famílias e a partilhar tudo o que para elas constitui alegria e esperança, mas também preocupação e inquietude.
Com efeito, a experiência familiar é chamada a tornar-se um ofertório quotidiano, como que uma oferenda santa, um sacrifício agradável a Deus. O evangelho da apresentação de Jesus no Templo no-lo sugere igualmente. Jesus, “a luz do mundo” mas também “sinal de contradição” (Lc 2,32-34) deseja acolher este ofertório de cada família tal como acolhe o pão e o vinho na Eucaristia. Quer unir ao pão e ao vinho destinados à transubstanciação estas esperanças e estas alegrias humanas, mas também os inevitáveis sofrimentos e preocupações próprios da vida de cada família, assumindo-os no mistério do seu Corpo e do seu Sangue. Este Corpo e este Sangue, Ele os dá em seguida na comunhão como fonte de energia espiritual, não só para cada pessoa singular mas também para cada família.
Que a Sagrada Família de Nazaré nos queira abrir a uma compreensão cada vez mais profunda da vocação de cada família, que encontra em Cristo a fonte da sua dignidade e da sua santidade.

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