Artigos, CPD, Editorial › 29/09/2018

Fé e Consciencia Política

A princípio convém analisar sucintamente os termos “consciência” e “política”. O primeiro termo pode ser bipartido em “co” e ciência”. Essa divisão dá a diretriz do sentido que queremos alcançar quando “co” nos remete à ideia de participação/colaboração. Em outras palavras, a consciência é formada com a participação do outro, com elementos externos, que ajudam na formação do “eu interior”. A pessoa é construída pela sua força interna em interação com seu mundo externo. O segundo conceito tem sua origem na língua grega, expressa na palavra politiké que contém em si o significado de “agir cidadão”, cuidado com a pólis assim como também quanto à sua manutenção. Em suma, o cuidado com a realidade social (pólis) passa por uma participação conjunta de pessoas conscientes quanto ao seu papel político-social.
A Igreja Católica recebe sua orientação diretamente da pessoa de Jesus Cristo através de sua vida e missão, expressas na Sagrada Escritura. Cristo mesmo é protótipo de vida modelar em todos os segmentos da vida humana que vai da vida psicológica “interior” passando pela vida moral/política até a profundidade mística de união com o Pai no Espírito Santo. A Sagrada Escritura possui do Gênesis ao Apocalipse temas políticos, no sentido de busca por consensos, solução de conflitos e concretização do “bem comum”. De modo bem preciso, Jesus dá a tônica do agir humano/cristão quanto a consciência política em Mateus 5 no chamado Sermão da Montanha. Nesse trecho vê-se claramente o conteúdo programático do cristão, cada um dos batizados é fomentador, promotor da justiça, solidariedade e paz.

O caminho consciente do cristão em matéria política passa pela confiança em Cristo, Senhor da História, pois Ele tem em suas mãos os destinos da humanidade. Outra passagem bíblica , Mateus 22, 21 em que Jesus confronta os interesses excusos dos que se posicionam contra o estabelecimento do Reino e os interesses de Deus e seu povo eleito, ajudam-nos a entender quanto ao ser cristão na sociedade. A famosa expressão “Devolvei o que é de César a César, e o que é de Deus, a Deus”, mostra que os dois reinos possuem direitos e deveres e que não se pode privilegiar o reino deste mundo em detrimento do reino dos céus. Nos primeiros três séculos a grande maioria dos cristãos vivia, do ponto de vista social, marginalizada. Os cristãos não admitiam secundarizar a fé em Cristo diante da onipotência “divina” do imperador. Mas houve sempre tentativas de diálogo com as realidades políticas, não deixando de haver tensões, principalmente no tocante a polêmica acerca da abstenção cívicas conduzidas por Orígenes, Celso e Tertuliano.
A tendência a uma harmonização veio com Eusébio de Cesareia (260-337) e Agostinho de Hipona (354-430). Deste último temos a célebre obra “ A cidade de Deus” em que procura narrar a história da humanidade existente em duas cidades: a dos homens e a de Deus. Ambas distintas, com sua lógica própria entre o amor a si mesmo, que tem por base o pecado, e o amor a Deus, que tem por fundamento o próprio Cristo. A citada obra é teológica, mas não se pode negar seu caráter filosófico-político. A obra em questão põe a Cidade de Deus em um grau superior à cidade dos homens. Essa “lógica” agostiniana tem consequências políticas reverberadas em toda a Idade Média, num arco de mil anos. O conteúdo programático da política medieval foi pautado pela superioridade do poder religioso sobre o secular. Em outras palavras, a realidade terrena deveria ser submetida à realidade celeste. No campos das ideias cunhou-se a expressão famosa: philosophia ancilla theologiae (a filosofia é serva da teologia). Em suma, o conjunto desse período se resume na palavra: cristandade.
Na virada histórica do século XVI em que um novo mundo eclodia em todos os aspectos. A Igreja através do Concílio de Trento (1545-1563) tentou reafirmar a visão histórico-política da cristandade, mas não obteve o sucesso almejado, devido as influências de acontecimentos posteriores marcados pelas grandes “revoluções”. A Revolução Industrial (1760) mudou o cenário populacional e urbanístico transformando pequenas cidades em conglomerados humanos de porte médio a grande. Com isso houve a transição de mentalidade rural para a urbana com todas as suas consequência político-religiosas. A Revolução iluminista (1784), tendo na linha de frente o pensador Immanuel Kant com sua “Aufklärung”, pôs a razão e o homem no centro do mundo. E por último a Revolução Francesa (1789) que empurrou a religião, enquanto ator político, a uma crescente e acentuada irrelevância político-social. Em meio aos “medos” que a vida moderna impôs à Igreja e ao conjunto dos cristãos, o papa Pio IX em pleno século XIX quis retomar em termos práticos e teóricos a ideia de cristandade. Para tal intento convocou o Concílio Vaticano I (1869-1870). Em poucas palavras, o que a Igreja nessa época sugeriu foi que os cristãos se abstivessem da participação da vida política nos termos vigentes da democracia, do iluminismo e liberalismo. Mas isso não impediu que o laicato assumisse papel político, principalmente na Itália e na Alemanha. Contudo, os cristãos católicos tiveram que esperar até a segunda metade do século XX para experimentar uma oxigenação das ideias políticas no seio institucional da Igreja.
Diante dos totalitarismos e das Grandes Guerras Mundiais que desumanizaram o século XX, a Igreja precisava dar uma resposta à altura dos novos e crescentes desafios. A humanidade presenciou horrores tendo por causa primeira ideologias políticas, que careciam da força “salvadora” do evangelho. Era urgente trabalhar as consciências em favor da vida, da liberdade e da paz. Tal empreitada carecia dos esforços conjuntos da Igreja espalhada pelo mundo inteiro, o fruto disso foi a convocação do Concílio Vaticano II (1962-1965). O Concílio discorreu sobre muitos temas, aqui nos detemos quanto à questão do cristão no mundo contemporâneo e o seu agir político. Quanto a isso, o Concílio promulgou o documento Gaudium et Spes ( Alegria e Esperança, 1964). Em suas páginas é bem clara a ideia de que somos protagonistas de um mundo “novo”, que somos construtores do Reino de Deus pela força e exemplo de Jesus.
O documento conciliar Gaudium et Spes faz uma apreciação das alegrias e temores que se apresentam diante de cada pessoa no tempo presente. Reconhece que o mundo passa por transformações de ordem social, moral e religiosa. A crise de valores chegou ao âmago familiar, desequilibrando as famílias e tendo por consequência a desarmonia da sociedade. A Igreja enfatiza que é preciso ter uma visão positiva da pessoa humana, mas é categórica em reafirmar que o “pecado” é a fonte dos desequilíbrios internos (mundo interior de cada pessoa) e exterior (as estruturas sociais). A natureza humana é dotada de dignidade, a pessoa foi feita para a liberdade (responsável) e que cada homem/mulher procure viver em comunidade, fonte de realização humana.
A consciência política passa a ser concretamente manifestada a partir de elementos palpáveis. É consciente politicamente quem promove o bem comum, conjunto das condições sociais que facilitam o aperfeiçoamento da sociedade (saúde, educação, moradia, liberdade, etc,.). Esse aperfeiçoamento passa pela vivência do binômio “direito” e “dever”. A verdadeira política reconhece e protege a dignidade da pessoa humana. A ordem social deve estar a serviço dessa dignidade. Esse respeito à pessoa humana é a bússula que orienta a “boa” política. Em uma vivência democraticamente realista, em que se admite o confronto de ideias, é necessário lembrar que faz parte dos valores cristãos o respeito pelos adversários. Na lide política não se pode ter “inimigos”, quando muito “adversários”, e o respeito é condição necessária para o bom andamento da democracia.
É no campo da utopia que se encontra a famosa ideia de igualdade entre os homens. Mas o cristão sabe que há igualdade essencial entre os seres humanos e que ninguém é superior a outrem, somos marcados pela mesma condição: a humana. Por isso mesmo, faz-se necessário vencer o individualismo pela beleza da solidariedade, o egoísmo pela força da caridade e a injustiça pelos valores éticos e evangélicos. A partir dessa visão, o cristão em matéria política é chamado a um engajamento político responsável.
A fé e a cultura são duas realidades que se entrelaçam. A nossa política, enquanto ação direcionada ao bem comum, é fruto de uma cultura iluminada pela fé. Há um potencial grande quando essas três realidades, fé-cultura-política, se juntam e ajudam a criar condições favoráveis à boa convivência humana. No dizer da Gaudium et Spes a comunidade política tem uma grande responsabilidade em construir uma sociedade justa e fraterna. O cristão consciente, imbuído dos valores do evangelho, por meio da participação social, busca a concretização do Reino de Deus já aqui na realidade terrestre. Em outras palavras, a Igreja propõe que o agir consciente do cristão o transforme em autêntico promotor da paz.

  1. Artigo elaborado por Padre Cristiano Tavares. Mestre em Teologia Sistemática pela PUCRS.
    Áreas de interesse: Política e Religião. Contato: cristianotavor@yahoo.com.br

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